domingo, 6 de maio de 2012

Oficina de escrita


Impressionismo/Realismo na "pintura" de Cesário Verde
Carlos Botelho

"Avé Marias"

O que vês?
Vejo algo muito escuro, mesmo de perto, sente-se o sfumato.
Mas de longe, bem lá ao longe, surgem uns tons azuis, pinceladas fracas e mais calmas.
Algo monótono.
De um lado tudo tão real,
do outro, a fantasia permanece...
Contrastes.
Do real surgem as cidades, os hotéis da moda,
mulheres desesperadas que esperam e anseiam o que...
...do fantástico aparece.
Barcos carregadinhos de coisas e gente,
mas de repente surge, antes do barco um livro planando pelo alto mar.
E a embarcação para trás fica
sem nunca mais voltar 

Maria Varela

sábado, 28 de abril de 2012

Um poema para o fim de semana

Laranja, peso, potência.
Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância.
A matéria pensa. As madeiras
incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar,
tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja
recebe soberania.
E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça.
A ferida que a gente é: de mundo
e invenção. Laranja
assombrosamente. Doce demência, arrancada à
monstruosa
inocência da terra.

Herberto Helder

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Sobre Cesário:

http://faroldasletras.no.sapo.pt/cesario_verde.html

Pessoa/Caeiro, sobre Cesário Verde


Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, Poema III, in Obras de Fernando Pessoa, vol. I, Lello & Irmão - Editores, Porto, 1986

Escrita criativa: Cesário pintor


Pintar a poesia de Cesário Verde (l.1-8, p.298)
I
Ave Marias
nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina


Leio este poema e parece que as suas palavras se transformam em algo belo e harmonioso, algo vibrante e atual, parece que o que as palavras descrevem ganham vida e se tornam parte do nosso mundo.
Mas olhando bem, sem turvar a nossa vista, conseguimos ver cada traço, cada pincelada, cada reflexo daquele que é o mundo em que vivemos.
Olhava de um quarto de uma casa alugada, com uma vista panorâmica da cidade de Lisboa, que era uma vantagem de só existir espelho entre ela e eu.
No meio deste quarto vazio encontrava-se um cavalete com alguns anos de uso, com algumas manchas de tinha que eram prova das grandes obras que tinha ajudado a criar, proporcionando um melhor conforto ao artista.
Ao seu redor encontravam-se algumas latas de tinta e pincéis que eu deixara espalhados desde a última vez que criara algo, e uma simpática cadeira que encontrara abandonada nas ruas desta cidade, mas em ótimo estado, como se ela quisesse que eu a encontrasse.
Acomodei-me na cadeira, peguei num pincel já um bocado enferrujado e deleitei-me com a paisagem noturna e maravilhosa da cidade. Estava cada vez mais bonita a cada noite que passava, embora esta não mudasse realmente o que era.
Olhava intermitentemente para a tela presa ao cavalete e aquele espetáculo de luzes a que costumava assistir todas as noites antes de me ir deitar; isso proporcionava-me sonhos maravilhosos.
Lembrando-me das confortante sensações que obtinha dos sonhos depois de um dia exaustivo, abri uma lata de tinta que tinha comprado há já uns dias e deixei-me levar pelos sons, pelos cheiros, pelos sabores e pelas texturas da cidade.
Um rádio tocava e o pincel dançava suavemente pela tela áspera, enquanto nascia uma obra como nunca ninguém teria visto.
Enquanto criava os prédios envoltos numa espessa neblina que nos deixava contemplar a arrepiante Lisboa noturna, a música mudou e com ela os movimentos do pincel tornaram-se vigorosos e precisos e começavam agora a criar a escuridão dos becos e das silhuetas que andavam rapidamente pelos passeios, para se refugiarem do perigo da noite; numa última mudança de sonoridade o pincel acalmou, e os seus movimentos eram minuciosos e fluidos, criando assim os reflexos e os traços de luz deixados pela pouca iluminação que lutava contra a escuridão.
Como não sabendo da existência desta obra, arregalei os olhos a esta minha maravilhosa criação, desacreditando da minha própria capacidade de criar algo tão belo e ao mesmo tempo tão arrepiante.
Este quadro apresentava traços esfumados e suaves, que fariam com que qualquer lugar adquirisse o mistério e fascínio da cidade.

Patrícia, 11º D

Cesário e a mulher

Temos falado da mulher citadina, a propósito de Cesário. Aqui vai a outra, o contraponto:

Naquele piquenique de burguesas...

Naquele piquenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela. 

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas. 

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas

sábado, 17 de março de 2012

Uma crónica com Cesário

A Noite Citadina
“E saio. A noite pesa, esmaga” Cesário observa a noite marginalizada pela sociedade do século XIX, que teme vaguear pelas ruas citadinas ao anoitecer. Pois para mim, por mais pesada que seja a noite, terá sempre os seus encantos.
Gosto de observá-la, gosto de compará-la, mas acima de tudo gosto de vivê-la. A noite, para mim, não pesa, nem esmaga, vive. Vive numa dimensão paralela à nossa, onde cada alma noturna que nela vagueia, tem uma história diferente da alma diurna.
A prostituta que naquele carro entra, durante o dia é a vizinha Lurdes. Dois filhos, empregada de loja, prestação da casa, luz, água, gás. É amiga, mãe, tia, filha, apenas durante o dia. De noite é o excremento de uma sociedade egoísta, aquela que já não serve, a marginal, a puta. A Lurdes do século XXI, é a mesma do séc. XIX. Continua a ser o prazer de muitos e o receio de outros. Mal sabem eles, que quem mais receia a chegada da noite, é Lurdes. Pois será ela que vagueará pelas ruas, será a julgada, a abusada, a mulher da vida.
Eu sou apenas uma espectadora da noite citadina. Nada temo, e nada julgo. Ao vaguear pelas ruas, também eu serei o pensamento de muitos. Tal como os outros são o meu pensamento. “O que fará aqui?” “Onde morará?”, São algumas das perguntas que me passam a mim e a muitos outros, que sozinhos passeiam pela noite. Perguntas às quais nunca iremos ter resposta. Mas não me incomoda, pois ao entrar em casa, esperarei pela chegada do dia. E enquanto a sociedade me deixar, serei sempre a mesma Elsa, seja de dia ou de noite. Não terei de recear a noite, nem o dia.
Elsa Severino nº9 11º E

Relatório de uma visita de estudo


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Santíssimo Tribunal da Inquisição,


Conforme pedido  por vossa excelência o inquisidor mor, relato aqui os eventos que tiveram lugar na passada missa de domingo, dia 14.  Dirigi-me à igreja de S. Roque para registar as provas de acusação ao pregador Padre António Vieira, tenho no entanto a informar vossa excelência que nada de blasfemo encontrei no seu discurso. Os seus lábios não teciam heresias, apenas verdades. O esplendor do seu sermão arrebatou os corações dos ouvintes e o meu. Deixou-me perplexo a fusão perfeita das palavras e da beleza da igreja. O fulgor da voz que falava do púlpito preencheu-nos a alma, assim como os floreados e dourados preenchiam as paredes. A humanidade do pregador assemelhava-se à dos rostos dos anjos que figuravam nas capelas. Todo o ambiente barroco que nos rodeava se unia incomparavelmente ao que ouvíamos. É assim impossível encontrar qualquer calúnia no meio de tal esplendor. Peço que retirem as acusações feitas ao Padre António Vieira pois se de alguma coisa ele é culpado é de dizer a verdade e de tocar os corações dos homens.

Margarida Gomes da Silva, 11º A

Relatório de uma Visita de Estudo


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                Irei agora até à Igreja de São Roque ouvir em surdina a doutrina pregada, palavras de mentirosos pregadores, em que pensam que a palavra jesuíta é a palavra da razão, não poderiam estar mais enganados.
Ao chegar à Igreja avisto um edifício áspero, rígido, nada bonito para o olhar, simples e nada chamativo, mas ao entrar, meu Deus ao entrar fiquei perplexo com tal beleza conseguida, tal austeridade, tal delicadeza. Uma igreja auditório como nunca havia visto, as variadas capelas eram todas cobertas a ouro e onde a ornamentação vegetalista e as figuras religiosas enchiam as paredes e até as colunas adossadas a cada capela. E o teto…  Um teto onde também reinava a representação de figuras religiosas com uma imensa técnica de trompe de l’oeil, numa tentativa de ilusão e profundidade. É bem visível que existe um horror ao vazio mas teve um resultado bastante compensador resultando numa composição fantástica de cores e objetos. Vindo eu de longe para ouvir as palavras de um pregador não consegui prestar atenção pois fui absorvida pela tamanha beleza interior do edifício. Seria mentira se dissesse que não estou deslumbrada com tal beleza.

Joana Courela, 11º A

Sujeito composto: brincar com a língua


O senhor sujeito composto
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                O senhor sujeito composto e a sua gabardina saíram de casa num belo dia de chuva. A porta foi fechada e o chapéu-de-chuva foi aberto enquanto o senhor composto passeava pelas ruas estreitas e alagadas da sua cidade. As pingas ao caírem faziam chap e chop, chap e chop sem pararem. O senhor composto e a sua gabardina andavam de rua em rua, de passeio em passeio e de estrada em estrada, de um lado para o outro. A uma certa altura o senhor composto com o seu chapéu na mão olharam para os seus pés e repararam que a estrada e o passeio não eram cinzentos, mas azuis, não era a estrada nem o passeio de certeza. Mas então sobre o que é que estaria a andar? Sobre o céu e as nuvens. O senhor composto, a sua gabardina e o seu chapéu-de-chuva estavam a passear sobre as nuvens. Mas porquê sobre as nuvens e o céu? Era sobre as nuvens e sob o céu porque o mundo estava virado de pernas para o ar.

Joana Courela, 11º A

Brincar com a língua


Aférese
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‘’Tá Calada!’, grita ela em pleno autocarro, fazendo a sua voz sobrepor-se a todas as outras que murmuram e até à do senhor do bigode farfalhudo que insiste em ligar aos seus amigos e falar-lhes aos berros.
Ela, uma jovem com os seus quinze anos, é a mulher de amanhã, aprecia, pelos vistos, comer sílabas. Pergunto-me o que fez ao resto do “está” porque ali é que não “tá”.
Assistimos aqui então a um processo chamado Aférese no qual um segmento deixa de ser articulado no início da palavra.
Assim sendo, e seguindo a lógica do acordo ortográfico será que, daqui a uns anos, quando aquela jovem de hoje, for a mulher de amanha, o nosso ver “estar”, passará a ser conjugado “tar”?
(talvez…)

Tomás Neves 11ºA nº25